A Maison de l’Amérique latine em Paris retoma o contacto com a fotografia, dedicando uma exposição a uma figura maior desta disciplina na América Latina: o peruano Javier Silva Meinel. Sob o título « Umbrales, Javier Silva Meinel. Uma poética da imagem » (umbrales, limiares em francês), este evento de caráter retrospectivo está sob a curadoria de Alejandro León Cannock, em associação com a Galerie Younique.
Pela primeira vez em França, são apresentadas aos visitantes não menos de uma centena de imagens que misturam fotografias analógicas, impressões digitais coladas sobre alumínio, caixas de luz retroiluminadas e wallpapers. Esta proposta inédita convida os visitantes a imergir na obra de um dos fotógrafos peruanos mais importantes da sua geração, ou mesmo da história da fotografia latino-americana. O percurso imaginado por Alejandro León Cannock levará os visitantes a um universo tão maravilhoso como estranho e bizarro, fruto das visões de Javier Silva Meinel. Como uma viagem do dia para a noite, ao mesmo tempo física e espiritual, através de todo o território peruano, Silva Meinel — à maneira de um Irving Penn ou de um Martín Chambi — recria o estúdio no caminho. Tomando o seu tempo com os seus sujeitos, desenvolve com eles uma cumplicidade singular. Abordando as suas temáticas prediletas (máscaras, passagens, artifícios, animais, estranhezas, encantados), há mais de quatro décadas que Silva Meinel não pára de percorrer as costas do Pacífico, as montanhas dos Andes e a floresta amazónica à procura de sinais, de interstícios, de cintilações, de epifanias que convidam o espectador a atravessar o limiar do conhecido para penetrar nas profundidades que constituem o inconsciente do real: um intermezzo. Nas suas imagens, o real, o imaginário e o simbólico entrecruzam-se e confundem-se, criando um espaço de transição; onde a fotografia se revela como fenómeno liminar: a imagem-limiar. Um lugar de trânsito e de transformação, como uma passagem que liga o aqui e o além, o visível com o invisível, o real com o surreal. O trabalho paciente e constante ao longo dos anos — um trabalho de proximidade, de escuta, de diálogo e de partilha — foi o método, mas sobretudo a ética, de Silva Meinel. E o que não se vê à superfície das imagens deixa-se contudo sentir na sua atmosfera: um fôlego feito de curiosidade, fascínio, respeito e delicadeza atravessa as suas fotografias, realçando a presença daqueles que ele fotografa e restituindo-lhes toda a sua força sensível. Ele demonstra que a imagem pode ser um lugar de reciprocidade e de presença partilhada. Nesta época de essencialização da representação do outro, a obra de Silva Meinel recorda que outras figuras do fotógrafo são possíveis: talvez seja ele, antes de tudo, um tecelão de laços, de histórias, de relações, de imaginários.
Fonte: paris.fr — foto: Javier Silva Meinel
